No Brasil, acabamos de passar por uma acirrada disputa política entre o que podemos considerar como “esquerda x direita”, seja na luta pelos cargos do Legislativo, seja para os do Executivo. Mas, qual o significado mais profundo que esses termos guardam na sua condição atual, seja nacional seja internacionalmente?
Este segundo artigo, dedicado à abordagem do tema “direita x esquerda” no plano político-ideológico, não tem a pretensão de falar sobre a diferença fundamental – ou do critério diferenciador principal – entre as duas vertentes ideológicas, tendo em vista que isso já foi realizado em artigo anterior. O que pretendo é abordar as consequências dessa diferença fundamental, ou seja, quais são as principais diferenças secundárias existentes entre a direita e a esquerda, decorrentes desse critério diferenciador principal.
Conforme o artigo anterior, ficou estabelecido que o critério diferenciador principal entre direitistas e esquerdistas é o apego muito maior dos últimos à crença no poder humano para a transformação da realidade, isto é, a convicção de que a ação humana possui um poder de criação e de transmutação da realidade social, política e existencial, capaz de criar uma nova ordem de coisas praticamente a partir do nada – ou mesmo do caos – anterior. Os esquerdistas tendem a ter uma visão negativa a respeito do passado e do presente, e atribuem ao futuro o papel de momento redentor da humanidade, na qual ela redimiria a si mesma. Os direitistas tendem a ter uma cosmovisão cética em relação a isso, acreditando que o poder humano possui limites intransponíveis, ou seja, a política não tem o papel redentor que os esquerdistas costumam atribuir a ela.
Quais as principais consequências dessa diferença fundamental entre direita e esquerda? Quais as principais diferenças, que podemos pensar como secundárias ou consequenciais, que provêm desse critério fulcral?
O Problema da Ordem: Ordem Pré-Existente vs. Construção Artificial
O primeiro deles diz respeito ao problema da ordem. Muitos são os cientistas políticos que, numa primeira impressão a respeito do tema, acabam atribuindo o elemento da “ordem” totalmente à direita, relegando à esquerda o papel de ser a “oposição à toda ordem estabelecida”. Isso, no entanto, não seria possível, tendo em vista que, no mundo moderno e contemporâneo, uma parte substancial das ordens sociais existentes são produtos da ação política da própria esquerda. Nesse sentido, por exemplo, um stalinista não poderia ser contra a ordem instituída pelo governo soviético de Joseph Stálin. Neste exemplo, a esquerda seria o “partido da ordem” e a direita seria o “partido da oposição”.
Creio que a diferença básica entre direita e esquerda no que se refere ao problema da ordem é que apenas os direitistas costumam contemplar a ordem – social, política e mesmo cósmica ou divina – como algo pré-existente, como algo já dado pela natureza das coisas, enfim, como algo orgânico. No caso da esquerda, ela tende a conceber a ordem como algo a ser construído de maneira totalmente artificial por mãos humanas, como se o homem fosse predestinado a ser o redentor de si mesmo, ou seja, a ser o criador da ordem que irá salvá-lo do caos de sua própria natureza ou tradição anterior.
Tanto o liberalismo quanto o socialismo foram profundamente influenciados pela mentalidade contratualista moderna – de Hobbes, Locke e Rousseau –, que acreditava que a ordem sócio-política era algo a ser criado artificialmente pelo ser humano por intermédio do contrato social, ou seja, a simples associação contratual entre múltiplos indivíduos dotados de razão viria a suprir os problemas de sua própria natureza.
Do lado da direita, a tendência é que ela siga o primeiro princípio formulado por Russell Kirk no seu livro A Política da Prudência (1993), que é a de que o próprio cosmos – o universo de modo geral – é regido previamente por uma ordem duradoura, e ela se reflete num aspecto moral e político, tanto por meio da ordem interior da alma humana quanto por meio da ordem exterior da sociedade, com sua harmonia de leis, tradições e instituições orgânicas. Desse modo, com base no pensamento político clássico antigo, a ordem política decorrente da ação humana deve apenas refletir essa ordem pré-existente. O pensamento da direita, portanto, não é a de que o homem está destinado a criar uma ordem do nada ou do caos pré-existente, mas a de que já existe uma ordem anterior que serve como guia para o agir político e social.
“O primeiro princípio da política da prudência é a crença de que existe uma ordem moral duradoura no cosmos, refletida tanto na harmonia interior da alma humana quanto na ordem exterior das instituições, tradições e costumes da sociedade.” — Russell Kirk, A Política da Prudência (1993)
A Responsabilidade Histórica e a Mentalidade Revolucionária
Um elemento de extrema relevância é que, considerando-se que a esquerda se compromete com uma ordem apenas futura, enquanto a direita se compromete com uma ordem passada – ou mesmo perene –, apenas esta última costuma assumir responsabilidade pela ordem existente e atualizada. Um comunista que siga a tradição marxista, por exemplo, tenderá a não assumir a responsabilidade nem mesmo pela ordem social criada por um governo seu, tendo em vista que é apenas com a ordem futura – da sociedade perfeita, sem classes e sem Estado – que ele se compromete, não se vinculando, portanto, com qualquer espécie de ordem presente, ainda que ele seja seu principal autor em termos de autoridade governamental. Isso faz parte daquilo que Olavo de Carvalho chamava de “inversão da ordem da realidade”, seja sob o aspecto temporal, seja sob o aspecto moral, autoral ou de responsabilidade, que é típico da chamada “mentalidade revolucionária”.
O Lema da Revolução Francesa e o Poder de Transformação
Outra diferença importante entre direita e esquerda ocorre no que se refere aos três pontos do lema da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – em especial no tocante aos dois primeiros, que foram os mais importantes quanto à tentativa de aplicação no âmbito estatal e social nos dois últimos séculos.
Há cientistas políticos que afirmam que a esquerda oferece a opção pela igualdade, enquanto a direita tem clara opção pela liberdade. Porém, isso só corresponderia à realidade das coisas caso a direita estivesse vinculada quase que tão somente ao liberalismo ou às formas derivadas dessa ideologia política. Além disso, algumas formas de liberdade são buscadas mais pela esquerda do que pela direita, em especial aquelas que se referem mais a negar a natureza das coisas e a afirmar a vontade arbitrária do indivíduo humano, como ocorre, por exemplo, no caso da ideologia de gênero.
A minha tese é de que a esquerda assume, mais do que a direita, o domínio sobre todos estes três elementos que constituem o lema da Revolução Francesa, tendo em vista que: a) em primeiro lugar, a própria Revolução Francesa é, de certa forma, obra da esquerda – ou seja, de uma mentalidade revolucionária que, posteriormente, se dividirá em elementos mais radicais e outros mais moderados; b) em segundo lugar, conforme consequência da minha própria tese inicial, a esquerda, muito mais do que a direita, cultua o que ela considera como a capacidade humana de transformação ou transmutação da realidade, tanto social ou política quanto até mesmo existencial.
Desse modo, o socialismo – e todas as suas formas derivadas – seria muito facilmente classificado no espectro da esquerda, tendo em vista que todas as formas de enxergar a realidade social como um molde que adquire forma de acordo com a capacidade racional e administrativa do ser humano – seja em escala individual seja coletivamente – é produto do pensamento de esquerda. Todos os tipos de sociedade plenamente ou racionalmente administradas são frutos de uma espécie de pensamento ideológico que cultua o poder humano sobre a ordem do real.
O Estatuto do Liberalismo: Entre a Revolução e a Tradição
Já o liberalismo não é uma ideologia facilmente classificável, seja na direita seja na esquerda. Isso porque ele pode ser interpretado de diversas formas, e sua aplicabilidade no âmbito da realidade sócio-política também pode ocorrer de formas diferentes.
O liberalismo pode ser entendido como aquele tipo de ideologia que acredita que o homem é senhor de si mesmo e, por extensão, das coisas materiais e imateriais que constituem sua propriedade. Esse pensamento, se comparado com a mentalidade tradicional cristã – em especial a católica –, deve ser classificado como revolucionário: o ser humano teria mais direito e mais poder sobre si mesmo e sua própria natureza do que se poderia pensar pela mentalidade cristã medieval, por exemplo. Porém, se o liberalismo for entendido como aquela ideologia que reconhece que a liberdade de mercado e a liberdade econômica em geral são melhores para o ser humano, tendo em vista a tradição histórica que comprova essa teoria, ele deverá ser compreendido como fruto de um pensamento “de direita”, pois recorre à tradição e à experiência da realidade passada para pensar sobre o presente e o futuro.
Racionalismo, Romantismo e Irracionalismo
Além disso, a esquerda costuma ser associada por muitos cientistas políticos ao racionalismo, enquanto a direita, por contraste, seria associada a certa espécie de irracionalismo. Minha posição a respeito dessa associação é que ela é superficial e, ao menos, relativamente tendenciosa, tendo em vista que, de acordo com esse ponto de vista, tudo o que seria racional estaria vinculado à esquerda, e tudo o que poderia ser considerado irracional se vincularia à direita. Na verdade, o esquerdismo surge enquanto ideologia muito por influência, direta ou indireta, de Jean-Jacques Rousseau, que, de certo modo, foi um dos maiores propugnadores, sob diversos aspectos, do Romantismo, o qual se contrapôs frontalmente ao Racionalismo dos séculos XVII e XVIII. A esquerda obviamente também recebeu influências racionalistas, tanto do contratualismo hobbesiano quanto, indiretamente, de outros filósofos, como René Descartes e Baruch Spinoza, mas essa influência deve ser sopesada pela influência romântica – e, por consequência, irracionalista, sob certos aspectos –, decorrente de Rousseau. Já o relativo irracionalismo da direita advém da crítica cética de David Hume ao Racionalismo Cartesiano. Hume pode ser considerado um propugnador indireto do pensamento conservador e cético, a partir de meados do século XVIII. Porém, esse irracionalismo deve ser contrastado com o realismo político, advindo do pensamento clássico, antigo e medieval, principalmente com Aristóteles e Santo Tomás de Aquino.
O Conceito de Democracia na Direita e na Esquerda
Muitos afirmam que, pelo fato de a esquerda se posicionar mais favoravelmente à igualdade total entre os homens, ela é mais democrática do que a direita, a qual, por sua vez, teria uma tendência, se não autocrática, mas, ao menos, mais aristocrática. O tema a respeito da democracia é muito amplo para ser discutido aqui, e necessitaria de um artigo posterior, exclusivamente para esse assunto. O que posso afirmar aqui é que, na atualidade, de modo geral, tanto a esquerda quanto a direita costumam aceitar a ideia de democracia, mas ambos os espectros políticos têm uma visão diferente, entre si, sobre o conceito de democracia. Para os esquerdistas, esse conceito costuma se associar mais à ideia de igualdade plena entre todos os cidadãos, igualdade que inclui os aspectos sociais – de tentativa de equalização entre as diferentes classes sociais –, além da luta contra os projetos de poder imperialistas por parte de países mais fortes econômica e geopoliticamente. Para os direitistas, incluindo aqui os conservadores e os liberais de forma geral, a democracia é um procedimento formal para a reafirmação da autodeterminação dos povos, e se contraporia a sistemas autocráticos, nos quais determinado grupo ou facção se apropria do poder político para benefício exclusivamente próprio. É evidente que existem esquerdistas e direitistas que, em suas respectivas posições, são contrários à democracia, e aprovam regimes ditatoriais de governo, mas estes são considerados as vertentes mais radicais da esquerda e da direita.
Considerações Finais
Não me propus, neste artigo, a destrinchar todo o amplo conjunto de diferenças que podem existir entre a esquerda e a direita, mas apenas tracei algumas das principais diferenças assinaladas entre os dois prismas ideológicos, a partir do critério fundamental que estabeleci no meu último artigo sobre esse mesmo tema. Pode-se perceber que há uma relativa complexidade na formulação dessas diferenças, pois não se trata de um mero exercício de lógica matemática, mas de apreciação de como esses prismas ideológicos foram evoluindo, cultural e politicamente, ao longo da História. Espero que este artigo seja de utilidade prática e teórica para aqueles que desejam se orientar melhor neste vasto panorama político-ideológico que temos na atualidade.