Literatura & Filosofia Política

MACHADO DE ASSIS, OLAVO DE CARVALHO E A IDENTIDADE NACIONAL BRASILEIRA

Prof. Caio Cazarotto
Professor Caio Cazarotto Doutor em Filosofia pela PUC-SP
Tempo de leitura: ~15 min
Machado de Assis, Olavo de Carvalho e a Identidade Nacional Brasileira

A comemoração do bicentenário da Independência do Brasil, em 2022, envolveu muito poucas homenagens oficiais de órgãos oficiais estatais, além de poucas produções culturais que falassem sobre o tema, diferentemente do que ocorreu, por exemplo, na comemoração dos Duzentos e Cinquenta Anos da Independência dos Estados Unidos da América no dia 04 de julho de 2026.

Por que isso ocorreu? Para nós, brasileiros, em geral, a história da nossa Independência e de todo o processo de construção das instituições nacionais que daí decorreram é como se fosse algo externo a nós, algo do qual não nos sentimos partícipes. Se eu me sinto participante tão somente de vida privada ou familiar, e se a História da minha própria pátria me é estranha, qual identidade nacional me resta?

A identidade nacional pode ser conceituada, conforme preceitua o escritor e filósofo Olavo de Carvalho, como a memória dos feitos e acontecimentos vivenciados em comum por um povo. É óbvio que todo povo é constituído por diversas gerações de pessoas, e uma geração, por mais diferente que seja das demais, transmite a história e os valores que recebeu para a seguinte, a fim de que esta possa prosseguir e manter a mesma identidade. Essa identidade, portanto, é formada com base na tradição e no senso de pertencimento e de participação dos indivíduos e grupos numa mesma pátria.

Mas, uma vez aceita essa premissa, a questão que surge é a seguinte: por que a identidade nacional brasileira é tão frágil, como ficou demonstrado na ausência de memórias oficiais coletivas diante do bicentenário da nossa Independência, por exemplo? Quais os principais motivos pelos quais o nosso senso de pertencimento e de participação na História do país é tão tênue e, muitas vezes, quase inexistente?

Um dos escritores que se debruçou sobre essa questão da identidade nacional brasileira foi Machado de Assis, já no século XIX. Durante o Segundo Reinado, período em que Machado começou a escrever, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado em 1838, já era uma das principais instituições que buscaram forjar uma identidade nacional pátria. Portanto, o tema estava em voga naquele momento, e Machado, em alguns de seus escritos, voltou sua atenção a ele.

Neste artigo, pretendo me deter em apenas dois escritos do Bruxo do Cosme Velho: o ensaio Instinto de Nacionalidade (1873) e O Espelho, publicado no conjunto de contos em Papéis Avulsos (1882). Em ambos, o escritor aborda o tema da identidade nacional, no primeiro de forma mais explícita, e no segundo de maneira mais metafórica.

Logo no início do ensaio Instinto de Nacionalidade, Machado já expõe sua tese acerca do traço distintivo da literatura brasileira do seu tempo:

“Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono de futuro.(...) Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional.”

O autor fala que a preocupação comum dos nossos literatos, ao produzir suas obras, é perfazer “certo instinto de nacionalidade”. Poderíamos dizer que esse “instinto” é o que produz a chamada “cor local” em muitos dos escritos literários brasileiros – isso ocorreu, por exemplo, por meio da exaltação da flora e da fauna locais de regiões do Brasil, de usos, costumes e tradições específicas nacionais, do modo de falar de grupos étnicos etc. Machado já percebia isso em 1873, período do chamado “Romantismo”. No entanto, essa característica não se restringe a tal período, tendo em vista que, em larga medida, foi recuperado pelo Movimento Modernista no início do século XX.

Apesar de Machado fazer algum elogio ao chamado “instinto de nacionalidade” na literatura brasileira do seu tempo, o seu intuito é principalmente crítico, tal como se percebe pela leitura dos seguintes trechos:

“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.(...)

Compreendo que não está na vida indiana todo o patrimônio da literatura brasileira, mas apenas um legado, tão brasileiro quanto universal, não se limitam nossos escritores a uma só fonte de inspiração. (...)

O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e não acabaria se fosse necessário recorrer aos estranhos(...); e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de gênio universal, um poeta essencialmente inglês.”
Retrato histórico autêntico de Machado de Assis
Machado de Assis (1839–1908), o Bruxo do Cosme Velho: ensaísta, romancista e fundador da Academia Brasileira de Letras.

Um bom escritor de peças de teatro, de romances, de poesias, de novelas, de contos etc., portanto, não deve se limitar a produzir uma literatura que busque apenas retratar a “cor local”, como se os aspectos culturais presentes no Brasil fossem o centro de suas narrativas. William Shakespeare, como demonstra Machado, procedeu de modo bastante diferente no contexto da Inglaterra do seu tempo. Conforme afirma o autor de Instinto de Nacionalidade, do escritor se deve exigir apenas “certo sentimento íntimo”. Isso significa que um bom escritor não precisa exagerar em certas descrições de cenários exóticos, folclóricos ou “típicos brasileiros” para ser considerado nacional, mas expressar a realidade tal como ele a enxerga e experiencia, preocupando-se em abordar temas universais e humanos de forma geral.

Essa tendência de busca constante pela identidade nacional entre a classe letrada brasileira, conforme já assinalado, não se limitou ao século XIX. Ela se propaga no plano da literatura e da cultura de forma geral até a atualidade. Olavo de Carvalho percebeu isso já nos anos 1990, quando escreveu o livro O Futuro do Pensamento Brasileiro (1997). Segundo Olavo, a busca incessante pela identidade nacional no Brasil é um sinal de imaturidade cultural e de provincianismo, e resulta em isolar o Brasil do restante da Civilização Ocidental. Ele afirma que o tipo de busca de identidade, no caso brasileiro, é claramente solipsista. No artigo Um povo sem espelho (1997), Olavo argumenta:

“(...) a pior de todas as consequências de nossa recusa de um espelho humano é que ela nos deixa sem defesas contra qualquer cultura estrangeira que pretenda nos remoldar à sua imagem e semelhança – à imagem e semelhança de suas peculiaridades, algumas das quais podem ser bem mais doentias que as nossas. Se não houvesse no fundo de nós uma consciência reprimida que nos acusa de covardia narcísica, não cederíamos tão depressa às modas culturais que invadem nossa casa pela tevê, se pavoneando de globalismo e universalidade, e não passam, no fundo, de manias de americanos. Se tivéssemos a justa medida de nosso valor e desvalor, nem nos esconderíamos numa carapaça solipsística nem procuraríamos nos evadir dela mediante crises de macaqueação despersonalizante. Mas a obtenção dessa justa medida depende de consentirmos em estudar precisamente aquilo que, segundo o dogma uspiano, não vem ao caso.”

Diante da busca solipsística e autocentrada de busca pela própria identidade – mediante reflexões vazias quanto a peculiaridades regionais ou grupais, sem comparações quanto a valores e desvalores em relação a outros povos –, a cultura brasileira se torna facilmente refém dos modismos culturais vindos do exterior. Essa característica, denominada por Olavo de “cronocentrismo”, foi ressaltado tanto no seu livro O Futuro do Pensamento Brasileiro quanto no curso avulso Política e Cultura no Brasil, presente no site do Seminário de Filosofia – o qual foi compilado na obra O Horizonte de Consciência do Brasileiro: conceitos e métodos para o estudo da política e da cultura nacionais (2026). O “cronocentrismo” pode ser explicitado da seguinte forma:

“Esta situação [da limitação do horizonte cultural brasileiro] se consolida em um dos traços – cientificamente comprovável – mais constantes da cultura brasileira e, portanto, da política brasileira: o que é tido como o topo da civilização, como o valor supremo, que deve ser incorporado, com muita dificuldade, à cultura local, é a cultura européia (ou, ainda, simplesmente, estrangeira) do momento. Se levantarmos uma bibliografia e observarmos quais são os autores estrangeiros citados nas discussões brasileiras, ficará claro que são sempre os autores de sucesso no momento – nunca os antigos. Quantos brasileiros citaram Leibniz, a propósito de qualquer coisa? Excetuadas as discussões restritas a teses universitárias, nas últimas décadas, e mesmo assim em proporção muito diminuta, praticamente não se encontra referência a ele. O mesmo se pode dizer de culturas distantes. Ibn Khaldun é simplesmente o inventor da ciência social moderna – e não Émile Durkheim. Mas este é citado, aquele não.”

Desse modo, a autoimagem do brasileiro fica dependente de dois fatores: da moda cultural vinda do exterior ou do fechamento da cultura brasileira dentro de suas próprias peculiaridades locais e regionais – seja em termos de linguagem, usos, costumes, fauna, flora etc. Nunca há uma abertura para a universalidade e para a verdadeira alta cultura, a fim de que a identidade nacional possa ser melhor refletida no Brasil.

Isso fica bastante claro pela leitura metafórica do conto O Espelho, presente em Papéis Avulsos (1882), de Machado de Assis. Nesse conto, Machado reflete criticamente sobre a construção da identidade atrelada às aparências, aos papéis sociais e ao olhar do outro, servindo, portanto, como analogia para refletir sobre a identidade brasileira.

Nesse conto, o protagonista Jacobina apresenta, em um pequeno grupo de senhores que conversa sobre temas metafísicos, uma tese inusitada sobre o ser humano. Jacobina afirma que o homem possui não uma, mas duas almas, uma interior e outra exterior; a primeira olha de dentro para fora, enquanto a segunda, de fora para dentro. Ele conta um episódio que ocorreu na sua juventude com o intuito de provar a sua tese.

Em seu relato, Jacobina diz que, quando ele tinha por volta de vinte e cinco anos de idade, se tornou Alferes da Guarda Imperial – um cargo militar de relativo status social. Pouco depois, ele fora convidado a passar alguns dias no sítio de sua tia Marcolina, que, juntamente com os escravos, passaram a bajulá-lo por causa do título de Alferes. A tia o presenteia com um espelho, que teria vindo de Portugal com a vinda da Família Real em 1808. A moldura do espelho, ao que consta, remetia ao período barroco, e já estava gasta.

Em vista de um problema familiar, a tia Marcolina precisou se afastar de seu sítio por algum tempo, e deixou Jacobina sozinho com os escravos. Estes, vendo a oportunidade de escaparem, fugiram do sítio, e deixaram o protagonista totalmente sozinho. Sem ninguém para chamá-lo de “Alferes” e elogiá-lo, Jacobina começa a perder a noção de quem ele realmente era. Num determinado dia, ao se olhar no espelho, o protagonista percebe que sua imagem se encontrava totalmente borrada, e que ele parecia invisível a si mesmo. Algum período depois, Jacobina se lembrou de sua farda militar. Ele a vestiu e voltou a se olhar no espelho. Desta vez, a imagem reapareceu de forma bastante clara e detalhada. Isso, segundo o protagonista, provou que sua identidade dependia do olhar exterior – do que ele chamou de “alma exterior” –, mostrando que, em alguns casos, a aparência importa mais do que a essência.

Existem algumas reflexões interessantes que é possível fazer sobre a busca pela identidade nacional brasileira a partir da leitura desse belo conto de Machado de Assis.

Em primeiro lugar, o espelho que Jacobina havia recebido de presente da tia Marcolina era do tempo em que o Brasil era colônia de Portugal, e que havia sido transmitido para a fase do Brasil Império por meio da transferência da Corte Real Portuguesa para o nosso país, assim como a farda de Alferes era do período imperial. Ora, o Brasil do século XIX buscava – especialmente a partir da Independência –, uma face “exterior” modernizadora segundo os moldes europeus da época – como do Iluminismo, por exemplo –, muito embora a sua “essência interior” fosse diferente, marcada pela escravidão e pelo patriarcalismo agrário, conforme nos relata Gilberto Freyre, por exemplo, em Casa-Grande e Senzala (1933).

Em segundo lugar, o Brasil, do mesmo modo como o personagem Jacobina, sofre de uma profunda crise de autoimagem – justamente porque não conhece a sua identidade –, passando pela experiência da farsa ou mesmo da dissolução da imagem que tem de si mesmo – ou da imagem proveniente dos valores da moda vindos do exterior – quando desprovida dos adornos civilizatórios superficiais. Isso prova que a imagem criada de si mesmo é dependente do aval estrangeiro ou das elites intelectuais locais.

Uma terceira reflexão da relação entre o conto de Machado e a questão da busca pela identidade nacional brasileira pode ser dada pelo crítico literário inglês John Gledson, especialista em Machado de Assis, no trecho a seguir:

“(...) a exemplo da imagem de Jacobina no espelho, o Brasil, de alguma forma, não está lá, pelo menos não no nível do mito e da tradição à qual o espelho explicitamente pertence: no entanto, a identidade nacional é, no final das contas, construída de tais mitos e tradições. Um motivo pode estar no próprio espelho: todo o Brasil tem que se olhar naquele espaço vazio rodeado por uma traçada moldura barroca, talvez uma metáfora de uma civilização decadente, a portuguesa do século XVIII, dependente das riquezas da colônia, que então tenta se achar em um objeto composto, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileiro do século XX, por “ausência de ruivos ornatos”. O próprio Drummond disse em um poema, do começo dos anos 30: “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?”. (negritos meus).”
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Um elemento que desejo destacar no trecho acima é a afirmação de que toda e qualquer identidade nacional é construída a partir de mitos e tradições. Uma das tradições está retratada na forma como o espelho – presente dado a Jacobina – é descrito, com sua moldura barroca e antiga. São justamente os mitos e tradições que muitas vezes faltam, no caso do Brasil, para que seja forjada uma verdadeira identidade nacional pátria. Isso porque tais elementos dependem – retomando a expressão utilizada por Olavo de Carvalho – da memória dos feitos realizados (e acontecimentos vivenciados) em comum.

No Brasil, está ausente o senso de participação do povo numa História comum. Diante dessa ausência, o que parcela de nossa elite intelectual e política faz é substituir esse senso – que deveria ser orgânico – de identidade por um artificial, baseado em referências culturais da moda vindas do exterior, geralmente recheadas de ideologias, ou em peculiaridades locais solipsísticas.

Se o brasileiro se afastar desses modismos estrangeiros e das idiossincrasias locais, e se fundamentar nos ensinamentos perenes dos autores clássicos – tanto antigos quanto modernos –, e também em mitos e tradições que lhe deem o verdadeiro senso de pertencimento e de participação numa pátria comum, a identidade nacional será muito mais facilmente reconhecida e vivenciada; portanto, deixará de ser uma obsessão vazia.

Prof. Caio Cazarotto
Sobre o Autor

Professor Caio Cazarotto

Professor de Filosofia Política. Doutor em Filosofia pela PUC-SP. Especialista em Filosofia, Teoria Política e Literatura. Produz conteúdos dedicados à formação intelectual crítica e à reflexão filosófica.

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